Como entra uma palavra
Nenhuma palavra estrangeira se torna palavra portuguesa de um dia para o outro. É um processo com etapas reconhecíveis — nem sempre todas, nem sempre pela mesma ordem, mas suficientemente regulares para se poderem descrever em geral.
O ponto de partida: o contacto
Uma língua só recebe palavras de outra se houver contacto entre falantes — por comércio, colonização, migração, escravatura, evangelização, guerra, ou, mais recentemente, pelos meios de comunicação e pela música. No caso das palavras deste arquivo, o contacto entre o português e as línguas de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, do Brasil, de Goa e de Macau atravessa mais de cinco séculos e teve formas muito diferentes: comércio marítimo, colonização, escravatura, e, já no século XX e XXI, migração e diáspora. A natureza do contacto molda o tipo de palavra que passa: vocabulário de comércio, de comida, de religião, de parentesco, de música.
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Empréstimo lexical
É o nome técnico para o processo de uma língua adotar uma palavra de outra. Nem sempre a palavra entra sozinha — por vezes entra porque o objeto, o prato, o género musical ou o costume que ela nomeia também entrou, e a língua recetora não tinha (ainda) palavra própria para isso. É o caso de palavras como «cachupa» ou «kizomba»: entraram porque o prato e o género musical entraram, e a palavra veio a reboque.
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Adaptação fonética
Os sons da língua de origem raramente coincidem exatamente com os sons disponíveis na língua recetora, por isso a palavra emprestada tende a ajustar-se à fonologia de quem a recebe — substituem-se sons que não existem por sons parecidos, simplificam-se grupos consonânticos difíceis, ajusta-se o acento tónico ao padrão da língua recetora. Este ajuste acontece muitas vezes de forma gradual e não uniforme, o que explica variantes gráficas de uma mesma palavra ao longo do tempo (por exemplo, «jindungo» e «gindungo» para a mesma palavra).
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Integração morfológica
Uma vez adaptada nos sons, a palavra tem também de encaixar na gramática da língua recetora: em português, isso significa ganhar um género (masculino ou feminino), um plural regular, e, se for um verbo, uma conjugação — como aconteceu com «xingar», que se conjuga como qualquer verbo regular da primeira conjugação, apesar de a sua raiz não ser latina.
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Mudança de sentido
É talvez a etapa mais interessante e a mais imprevisível. Uma palavra emprestada raramente mantém exatamente o sentido que tinha na língua de origem — pode alargar-se (como aconteceu com «bué», que de «muito, em grande número» passou a intensificador genérico), pode estreitar-se, pode ganhar um sentido completamente novo por metáfora ou associação (como «canja», de «papa de arroz» a «sopa de galinha» e depois a «coisa fácil»), ou pode até dividir-se em dois sentidos que deixam de se cruzar, como aconteceu com «muamba», que em Angola é um prato e no Brasil é contrabando.
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Dicionarização
Só depois de uma palavra circular oralmente durante algum tempo — por vezes gerações — é que costuma aparecer registada num dicionário ou num texto escrito datável. Isto significa que a «primeira atestação escrita» de uma palavra é quase sempre posterior ao momento em que ela começou realmente a usar-se, e por vezes bastante posterior. É também por isso que, neste arquivo, tantas fichas marcam a data de primeira atestação com [[VERIFICAR: ...]]: sem acesso direto aos corpora e dicionários históricos completos, apresentar uma data como certa seria inventar uma precisão que não temos.
Nem todas as palavras «pegam»
Por cada palavra que se fixa numa língua, há muitas outras que circulam durante um tempo e depois desaparecem, ou que ficam confinadas a um grupo pequeno de falantes e nunca chegam à língua geral. O que faz a diferença não costuma ser uma única causa, mas uma combinação: a frequência do contacto entre os falantes das duas línguas, se a palavra preenche uma lacuna (um conceito para o qual a língua recetora não tinha palavra própria, como aconteceu com «cafuné»), o prestígio ou a visibilidade associados à língua ou à cultura de origem num dado momento, e até fatores de pura sorte — uma palavra usada numa canção de sucesso, numa novela, num livro muito lido, tem mais hipótese de se generalizar do que uma equivalente que nunca teve essa montra.
Uma palavra pode entrar mais do que uma vez, por vias diferentes. «Samba» e «zumbi», por exemplo, têm raiz africana mas chegaram ao português europeu sobretudo através do português do Brasil, não diretamente das línguas africanas de origem — o Brasil funcionou aqui como um segundo ponto de contacto, não apenas como destino final. Veja as fichas com o selo «X → Brasil» em Palavras.
Por que é que isto interessa fora da linguística
Perceber como uma palavra entra numa língua ajuda a ler de outra forma o próprio vocabulário do dia a dia: «chá», «manga», «canja» e «banana» são palavras tão comuns em português que ninguém as sente como estrangeiras, e no entanto todas vieram de fora — algumas há mais de quinhentos anos. Uma língua não é uma coisa fechada que se protege de influências externas; é, também, um registo vivo dos contactos que os seus falantes tiveram ao longo do tempo. Este arquivo é, no fundo, uma tentativa de tornar esse registo um pouco mais visível.
Nem tudo o que parece africano é africano
A etimologia popular é traiçoeira. Há palavras que toda a gente associa a uma origem africana e cuja história, olhada de perto, não confirma essa ideia.
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