Bué
Do kimbundu -bue, «muito, em grande número»
AngolaQuotidianoSéc. XX
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR: data da primeira atestação escrita em português europeu]]
Sentido original
Muito, em grande quantidade.
Sentido hoje
Intensificador de calão jovem («é bué fixe», «bué gente»), difundido a partir do contacto com o português de Angola através dos retornados e, mais tarde, da diáspora e da música.
Cota
Do umbundu/kimbundu kota, «irmão mais velho, pessoa de respeito»
AngolaQuotidianoSéc. XX
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR]]
Sentido original
Pessoa mais velha, figura de autoridade familiar.
Sentido hoje
Em português de Angola, forma comum para «pai» ou para um homem mais velho; em Portugal, uso mais restrito, ligado ao contacto com a comunidade angolana.
Quitanda
Do kimbundu kitanda, «tabuleiro ou banca de venda»
AngolaComidaSéc. XIX
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR: data da primeira atestação escrita]]
Sentido original
Banca ou tabuleiro onde se vendiam víveres.
Sentido hoje
Pequeno mercado ou mercearia de bairro; sentido difundido sobretudo via português do Brasil, onde é de uso corrente. Em Portugal aparece hoje principalmente em contexto literário ou lusófono.
Cubata
Do kimbundu kubata, «casa, habitação»
AngolaCasaSéc. XX
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR]]
Sentido original
Casa, habitação tradicional.
Sentido hoje
Em Angola, casa ou habitação em geral. Em Portugal sobrevive sobretudo em relatos coloniais e pós-coloniais, por vezes com a conotação depreciativa de habitação precária — um desvio de sentido que vale a pena assinalar com cuidado.
Muamba
Do kimbundu mu'amba
AngolaComidaSéc. XX
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR]]
Sentido original
Guisado cozinhado em molho de óleo de palma.
Sentido hoje
Sobretudo na expressão «muamba de galinha», um dos pratos mais identificados com a cozinha angolana, hoje conhecido em Portugal via restauração e comunidade angolana. Em português do Brasil, a mesma forma ganhou também o sentido de «contrabando» — [[VERIFICAR: ligação exacta entre os dois sentidos]].
Jindungo
[[VERIFICAR: língua bantu exacta de origem]]
AngolaComidaSéc. XX
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR]]
Sentido original
Piripíri, malagueta.
Sentido hoje
Piripíri angolano usado em molhos e conservas; a palavra e o próprio condimento chegaram a Portugal com a diáspora angolana e são hoje reconhecíveis em mercearias e restaurantes angolanos nas grandes cidades.
Zumbi
Do kimbundu nzumbi, «espírito, alma de um morto»
Angola → BrasilQuotidianoSéc. XVII–XVIII
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR: data exacta da primeira atestação em português]]
Sentido original
Espírito de um morto, entidade sobrenatural.
Sentido hoje
Em português do Brasil ficou associada à figura histórica de Zumbi dos Palmares e, por extensão semântica mais recente, ao morto-vivo dos filmes de terror — sentido que viajou depois para o francês e o inglês (zombie) antes de regressar a Portugal como palavra de cultura popular global. [[VERIFICAR: detalhe da rota exacta de transmissão até ao inglês]]
Bunda
Do kimbundu mbunda, «nádegas»
Angola → BrasilCorpoSéc. XIX
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR]]
Sentido hoje
Mantém o mesmo sentido; entrou no português europeu sobretudo por influência da música e da televisão brasileiras a partir do final do século XX, e hoje é de uso informal corrente em Portugal.
Moleque
Do kimbundu mu'leke, «rapaz, criança»
Angola → BrasilQuotidianoSéc. XVII–XVIII
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR]]
Sentido original
Rapaz jovem; no Brasil colonial, também criança em condição de escravatura — uma origem que convém não branquear.
Sentido hoje
Em português do Brasil, «criança» ou «rapaz» em tom informal, por vezes afetuoso; em Portugal o uso é raro e tende a soar a brasileirismo, apesar de a palavra ter, na origem, uma história bem mais dura do que a leveza que hoje sugere.
Caçula
Do kimbundu kusula, «o último a nascer»
Angola → BrasilQuotidianoSéc. XVII–XVIII
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR]]
Sentido original
O filho mais novo de uma família.
Sentido hoje
De uso corrente em português do Brasil; em Portugal o termo tradicional é «benjamim», e «caçula» não se fixou no uso europeu comum.
Cafuné
[[VERIFICAR: língua bantu exacta de origem]]
Angola → BrasilCorpoSéc. XIX
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR]]
Sentido original
[[VERIFICAR]] — os dicionários brasileiros consultados apontam para origem africana provável, sem consenso fechado sobre a língua precisa.
Sentido hoje
Em português do Brasil, o gesto afetuoso de passar os dedos pelo cabelo de alguém — conceito para o qual o português europeu não tem palavra própria; continua a não ser de uso corrente em Portugal.
Samba
Ligada por vários investigadores ao termo bantu semba
Angola → BrasilMúsicaSéc. XIX
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR: primeira atestação escrita com o sentido musical]]
Sentido original
Gesto de dança de raiz bantu, associado ao toque de umbigos («umbigada»). [[VERIFICAR: percurso exacto da mudança fonética e atribuição precisa a uma língua bantu específica]]
Sentido hoje
Género musical e de dança identitário do Brasil, hoje conhecido globalmente, incluindo em Portugal, onde poucos falantes param para pensar na sua origem africana.
Fubá
Do kimbundu fuba, «farinha»
Angola → BrasilComidaSéc. XVII–XVIII
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR]]
Sentido original
Farinha, em sentido genérico.
Sentido hoje
Em português do Brasil, farinha de milho especificamente, usada em pratos como o angu e em bolos tradicionais; o termo não se fixou em Portugal, onde se diz «farinha de milho».
Xingar
[[VERIFICAR: língua bantu exacta de origem]]
Angola → BrasilQuotidianoSéc. XIX
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR]]
Sentido original
[[VERIFICAR]]
Sentido hoje
Em português do Brasil, insultar ou praguejar contra alguém; bem conhecido em Portugal via conteúdos brasileiros, mas não substitui, no uso espontâneo, os verbos do português europeu («insultar», «praguejar»).
Capulana
[[VERIFICAR: língua bantu exacta de origem, provavelmente do sul de Moçambique]]
MoçambiqueCorpoSéc. XX
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR]]
Sentido original
Peça de pano estampado, usada como saia envolvente, embrulho ou pano-de-costas.
Sentido hoje
O mesmo tecido estampado, hoje também usado por criadores de moda em Portugal como referência têxtil moçambicana — um dos poucos casos desta lista em que o próprio objeto, e não só a palavra, circula fisicamente entre os dois países.
Xitique
[[VERIFICAR: língua de origem, associada a línguas do grupo tsonga/ronga]]
MoçambiqueDinheiroSéc. XXI
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR]]
Sentido original
Sistema informal de poupança rotativa entre um grupo de pessoas de confiança.
Sentido hoje
O mesmo sistema, hoje descrito com esta palavra também em reportagens portuguesas sobre inclusão financeira e economia informal — um dos casos mais recentes desta lista, ligado à visibilidade crescente da diáspora moçambicana em Portugal no século XXI.
Kizomba
Do kimbundu kizomba, «festa, celebração» (origem angolana; incluída aqui por ser hoje um dos géneros musicais lusófonos mais conhecidos em Portugal, com forte presença também em Moçambique)
AngolaMúsicaSéc. XX
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR: data exacta de surgimento do género musical e da palavra em português]]
Sentido original
Festa, celebração coletiva.
Sentido hoje
Género musical e de dança de par surgido em Angola nos anos 1980, hoje ensinado e dançado em escolas de dança por todo Portugal — provavelmente a palavra desta lista com maior visibilidade pública fora de contexto linguístico.
Semba
Do kimbundu (n)semba, associado ao gesto de embate de umbigos («umbigada»)
AngolaMúsicaSéc. XX
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR]]
Sentido original
Toque de umbigos, gesto de dança ritual.
Sentido hoje
Género musical angolano, antecessor direto da kizomba; em Portugal é sobretudo conhecido por quem segue música e dança angolanas, menos generalizado do que «kizomba».
Zungueira
Do verbo kimbundu kuzunga, «andar, vaguear, percorrer»
AngolaDinheiroSéc. XXI
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR]]
Sentido original
Ato de percorrer as ruas a vender.
Sentido hoje
Vendedora ambulante, figura central da economia informal de Luanda; ganhou visibilidade em Portugal sobretudo via reportagens e documentários sobre Angola já no século XXI.
Candonga
[[VERIFICAR: língua bantu exacta de origem]]
AngolaDinheiroSéc. XX
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR]]
Sentido original
Comércio informal, revenda não regulada.
Sentido hoje
Mercado ou negócio informal, muitas vezes de bens escassos ou revendidos a preço mais alto; usa-se em Angola desde pelo menos o período pós-independência, e chega a Portugal sobretudo por via jornalística e académica.
As últimas quatro fichas — Kizomba, Semba, Zungueira e Candonga — são de origem angolana; ficam aqui, a seguir a Moçambique, apenas por proximidade de assunto no percurso de leitura. A atribuição correta de cada uma está sempre no selo de origem.
Cachupa
[[VERIFICAR: etimologia exacta — provável formação crioula cabo-verdiana]]
Cabo VerdeComidaSéc. XX
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR]]
Sentido original
Guisado de milho, feijão e carne ou peixe, prato nacional de Cabo Verde.
Sentido hoje
O mesmo prato, hoje bem presente em restaurantes cabo-verdianos em Lisboa e no Grande Porto — uma das comunidades lusófonas com maior enraizamento histórico em Portugal.
Morna
[[VERIFICAR: etimologia disputada — associada tanto ao português «morno» como, por alguns autores, ao inglês mourning, «luto»; nenhuma das duas hipóteses reúne consenso definitivo entre os investigadores consultados]]
Cabo VerdeMúsicaSéc. XIX
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR: data e autoria da primeira referência escrita]]
Sentido original
[[VERIFICAR: depende da etimologia que vier a confirmar-se]]
Sentido hoje
Género musical cabo-verdiano de tom melancólico, internacionalmente associado à voz de Cesária Évora; em Portugal é hoje um dos géneros lusófonos mais conhecidos do grande público, independentemente de a etimologia da própria palavra continuar por resolver.
Batuque
Provável formação em português a partir do verbo «bater»
Cabo VerdeMúsicaAté ao séc. XVI
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR: cronologia exacta da primeira atestação]]
Sentido original
Dança e percussão de raiz africana, tal como descrita — de fora — por cronistas e observadores europeus desde os primeiros contactos.
Sentido hoje
Em Cabo Verde, género musical e de dança com identidade própria; em português geral, o termo generalizou-se para qualquer música ou dança de percussão intensa. Um caso interessante: nasceu em português para nomear algo alheio à própria língua, não é um empréstimo direto de uma língua africana.
Funaná
[[VERIFICAR: etimologia exacta em crioulo cabo-verdiano]]
Cabo VerdeMúsicaSéc. XX
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR]]
Sentido original
Género musical e de dança do interior da ilha de Santiago, tocado tradicionalmente com acordeão e ferrinho.
Sentido hoje
O mesmo género, conhecido em Portugal sobretudo por quem segue música cabo-verdiana ou frequenta festas da comunidade — menos generalizado do que «morna» ou «kizomba».
O Brasil aparece nesta lista de duas maneiras diferentes: como ponto de passagem de palavras africanas que só se fixaram na língua depois de séculos de contacto no Brasil colonial (assinaladas acima com o selo «Angola → Brasil»), e como fonte de palavras genuinamente suas, de raiz indígena tupi — como esta:
Manga
Do malaiala māṅṅa, através do tâmil māṅkāy
Goa (Índia)ComidaAté ao séc. XVI
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR: data exacta da primeira atestação escrita]]
Sentido original
O fruto da mangueira.
Sentido hoje
Exatamente o mesmo. Um dos casos mais bem documentados desta lista: o português não só importou a palavra do contacto com a Índia a partir do século XVI como a exportou depois para outras línguas europeias — o inglês mango vem, por esta via, do português.
Canja
Do concani/malaiala kanji, «água de arroz, papa de arroz»
Goa (Índia)ComidaAté ao séc. XVI
- Primeira atestação
- [[VERIFICAR: data exacta da primeira atestação escrita]]
Sentido original
Papa ou caldo ralo de arroz.
Sentido hoje
Sopa de galinha com arroz, hoje um dos pratos mais tradicionais da cozinha portuguesa. A expressão «ser canja» para «coisa fácil» é um desenvolvimento de sentido posterior, já dentro do próprio português. [[VERIFICAR: cronologia exacta da mudança de «papa de arroz» para «sopa de galinha»]]